Levantamento Dados das Enchentes no RS - Enchentes no Rio Grande do Sul
Levantamento de Dados Históricos — Enchentes no Rio Grande do Sul
Section titled “Levantamento de Dados Históricos — Enchentes no Rio Grande do Sul”Finalidade: base empírica para fundamentação do projeto “Rede de Resiliência”. Escopo do projeto: fase de resposta ao desastre. O sistema não prevê, não alerta e não previne o evento — atua a partir do momento em que a catástrofe já está em curso e a infraestrutura de comunicação já falhou. Os dados abaixo foram selecionados sob esse recorte. Data do levantamento: 20/08/2026. Status: dados secundários consolidados a partir de fontes oficiais e jornalísticas. As séries primárias (cotas, vazões, precipitação, MDE) devem ser baixadas diretamente dos repositórios listados na Seção 6 antes de qualquer análise quantitativa própria.
1. Aviso metodológico — divergências entre fontes
Section titled “1. Aviso metodológico — divergências entre fontes”Três números centrais divergem conforme a fonte e a data de corte. Isso não é erro de coleta: é característica do dado de desastre, que é revisado por meses. O trabalho deve declarar a fonte e a data de cada número em vez de fixar um valor único.
| Indicador | Valores encontrados | Origem da divergência |
|---|---|---|
| Óbitos (2024) | 183 / 184 / 185 | Corte temporal. 183 era o balanço de agosto/2024; 184 após identificação pericial em abril/2025; 185 em balanço de movimento social (MAB) |
| Cota máxima do Guaíba | 5,13 m / 5,35 m / 5,37 m | Estação de medição distinta. O Serviço Geológico do Brasil (SGB) registrou 5,37 m na estação Cais Mauá C6 (SEMA-RS) e 5,13 m no Cais Central — este último é o ponto de referência histórica usado para comparação com cheias anteriores |
| Prejuízo econômico | R$ 4,6 bi (CNM) / R$ 98,7 bi (federal) | Naturezas diferentes: o primeiro é estimativa de dano; o segundo é volume de recursos destinados a emergência e reconstrução |
Recomendação: adotar a série do Cais Central (5,13 m) para comparações históricas e mencionar 5,37 m como pico absoluto registrado, explicitando a diferença de estação.
2. Evento de maio de 2024 — dados consolidados
Section titled “2. Evento de maio de 2024 — dados consolidados”2.1 Danos humanos
Section titled “2.1 Danos humanos”- 184 óbitos confirmados e 25 desaparecidos, conforme atualização da Defesa Civil estadual de 24/04/2025 — mais de onze meses após o evento, o que evidencia a lentidão da consolidação do dado.
- 478 municípios atingidos por inundações, quedas de barreiras e deslizamentos.
- Cerca de 2,4 milhões de pessoas afetadas nas regiões Central, dos Vales, Serra e Metropolitana de Porto Alegre.
- Mais de 442 mil pessoas deixaram suas residências: aproximadamente 18 mil em abrigos e 423 mil desalojadas.
- 77.712 pessoas resgatadas (balanço do Movimento dos Atingidos por Barragens, que também aponta 81.170 desabrigados e 581.638 desalojados).
- Mais de 640 mil residências sem abastecimento de água e mais de 440 mil unidades consumidoras sem energia elétrica.
- Nota técnica do Ipea estimou 876,2 mil pessoas em 420,1 mil domicílios diretamente atingidos nos municípios em calamidade ou emergência — 8,8% da população do estado. Desse total, 310,4 mil já se encontravam em vulnerabilidade socioeconômica antes do desastre.
2.2 Dados hidrológicos e meteorológicos
Section titled “2.2 Dados hidrológicos e meteorológicos”- Guaíba: pico de 5,37 m em 05/05/2024 na estação Cais Mauá C6 e 5,13 m no Cais Central — maior nível em mais de 250 anos de registro da cidade.
- Série histórica do Guaíba (Cais Central): 1873 — 3,50 m; 1941 — 4,76 m; 1967 — 3,11 m; setembro/2023 — 3,18 m; novembro/2023 — 3,46 m; maio/2024 — 5,13 m. A cota de transbordamento é de 3,00 m.
- Padrão de recorrência anômalo: entre 1941 e 1967 foram 26 anos até a cota de 3,00 m ser novamente atingida; depois, 56 anos. Entre setembro de 2023 e maio de 2024 a marca foi superada três vezes em nove meses. Este é provavelmente o dado mais forte para a justificativa do projeto: a premissa de excepcionalidade do evento extremo deixou de se sustentar.
- Taquari: superou 33 m em Estrela, muito acima dos recordes anteriores de 1941 e 2023, próximos de 29 m.
- Precipitação: mais de 300 bilhões de litros de água em Porto Alegre entre 27/04 e 31/05/2024. Acumulados superiores a 1.000 mm em 35 dias em cidades da Serra e do Vale do Taquari. A estação de referência climatológica de Porto Alegre (Jardim Botânico) acumulou 540 mm em maio, superando os 447 mm de setembro de 2023.
- Forçantes climáticas: El Niño em fase forte combinado a aquecimento recorde do Atlântico Tropical.
- Bacia contribuinte: o Guaíba recebe água dos rios Taquari, Caí, Sinos, Gravataí e Jacuí — todos em cheia simultânea, o que explica a magnitude do pico. Esse dado é relevante para o projeto porque significa que o colapso é regional e simultâneo, não pontual.
2.3 Danos estruturais
Section titled “2.3 Danos estruturais”- Estudo do PNUMA e da Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável da ONU, em parceria com o Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS, estimou mais de 400 mil edificações danificadas em alguma medida.
- A CNM estimou prejuízos de R$ 4,6 bilhões, concentrados no setor habitacional. O governo federal destinou R$ 98,7 bilhões a ações emergenciais e reconstrução.
- Bairros inteiros arrasados pela correnteza em Cruzeiro do Sul, Muçum, Lajeado, Estrela, Encantado, Roca Sales e Arroio do Meio — municípios que já haviam sido atingidos em 2023.
3. Colapso das telecomunicações — núcleo empírico da justificativa
Section titled “3. Colapso das telecomunicações — núcleo empírico da justificativa”Esta é a seção mais diretamente aproveitável para fundamentar a Rede de Resiliência. Os dados são da Anatel e do Ministério das Comunicações.
Cronologia da degradação e recuperação:
| Data | Municípios sem qualquer sinal | Observações |
|---|---|---|
| 02/05/2024 | 8 | Início do monitoramento de crise |
| 03/05/2024 | 12 | Anatel prevê agravamento; roaming entre operadoras habilitado |
| ~07/05/2024 | 9 | 239 municípios com “afetação parcial” (apenas uma operadora funcionando) |
| 09/05/2024 | 4 | Apenas 271 dos 497 municípios com funcionamento pleno |
| ~10/05/2024 | 3 | 344 municípios com funcionamento pleno |
| 13/05/2024 | 2 (Ivorá e Tunas) | 345 municípios com as três operadoras |
Municípios que ficaram integralmente sem comunicação (lista de 07/05): Arroio do Meio, Arroio dos Ratos, Capitão, Eldorado do Sul, Encantado, Pouso Novo, Progresso, Roca Sales e Travesseiro.
Causas do não restabelecimento, segundo relato das próprias operadoras: estradas e pontes danificadas impedindo acesso de veículos, ausência de energia elétrica comercial e falta de combustível para geradores. Em áreas alagadas, o serviço só poderia ser retomado após o recuo da água.
Medidas emergenciais adotadas:
- Envio de 14 terminais satelitais transportáveis da Telebras em 02/05, ampliado para 34 e depois 53 antenas de emergência destinadas a prefeituras, Defesa Civil, equipes de resgate, centros de comando de crise, hospitais de campanha e abrigos.
- Plano de instalação de 390 pontos fixos de internet via satélite em locais com energia elétrica.
- Manutenção de sinal para clientes inadimplentes e pré-pagos sem crédito.
- Roaming aberto entre prestadoras.
Aprendizado institucional posterior (dado de altíssimo valor para o projeto): em 2025, a Gerência Regional da Anatel no RS, em parceria com a Defesa Civil estadual e a LABRE-RS (radioamadores), passou a implantar uma rede de comunicação redundante para operações de resgate em cenários de desastre, com primeiro simulado anual realizado em agosto de 2025, conectando cidades do norte ao sul do estado. A justificativa declarada é exatamente a falha de comunicação de 2024 e a necessidade de garantir comunicação em caso de colapso das redes.
Uso sugerido: este é o argumento de que o problema que a Rede de Resiliência endereça é reconhecido oficialmente como não resolvido pela infraestrutura convencional. O projeto não propõe um problema hipotético — propõe uma alternativa a um problema que o próprio regulador admitiu.
4. Logística de resgate — evidência sobre coordenação
Section titled “4. Logística de resgate — evidência sobre coordenação”- Estimativa de cerca de 20 mil pessoas salvas com ajuda de moradores organizados com barcos, canoas e jet skis já na primeira semana.
- Cerca de 20 helicópteros particulares empregados em salvamentos.
- Mobilização de mais de 30 mil militares das Forças Armadas até 13/05, incluindo o navio NAM Atlântico.
- Fragmentação dos pedidos de socorro: a plataforma Salva RS foi criada por professores de Comunicação, Ciência da Computação e Arquitetura da UniRitter e colocada no ar em menos de 24 horas, com o objetivo explícito de centralizar pedidos de socorro dispersos em diferentes grupos de ajuda e evitar dispersão de recursos e esforços. A plataforma opera com duas interfaces distintas, uma para quem precisa de resgate e outra para quem pode resgatar. Reportagem de 14/05/2024 atribuiu a ela 12 mil resgates.
- Outras iniciativas independentes: site “Ajuda RS”, criado por um estudante da UFRGS, agregando mapas de abrigos, pontos de doação, formulários de voluntários e instruções de sinalização de locais de resgate.
- Relatos de vítimas aguardando resgate por até três dias.
- Campanhas de desinformação circularam durante a operação, incluindo alegações falsas sobre bloqueio de ajuda e desvio de recursos.
Uso sugerido: o surgimento espontâneo de três ou quatro plataformas concorrentes em menos de 48 horas é evidência empírica de duas coisas ao mesmo tempo — que existe demanda por coordenação assíncrona e que a ausência de um protocolo previamente estabelecido produz fragmentação. Ambas sustentam o projeto.
5. Série histórica de eventos comparáveis
Section titled “5. Série histórica de eventos comparáveis”| Evento | Mortes | Escala | Observações |
|---|---|---|---|
| Enchente de 1941 | — | Guaíba a 4,76 m | Motivou a construção do Muro da Mauá (2.647 m, 6 m de altura), 68 km de diques, 14 comportas e 19 casas de bombas |
| Enchentes de 1959 | — | — | Segundo maior desastre natural do RS em número de mortes, atrás apenas de 2024. Requer levantamento primário — pouco documentado em fontes digitais |
| 1967 | — | Guaíba a 3,11 m | — |
| Junho/2023 | — | Mais de 40 cidades | Ciclone extratropical; região metropolitana, Serra e litoral norte |
| Setembro/2023 | 54 (47 no boletim de 19/09) | 359.893 afetados em 106 cidades | 3.130 resgatados, 4.855 desabrigados, 21.095 desalojados, 943 feridos. Prejuízo de R$ 1,3 bi (CNM). Vale do Taquari |
| Novembro/2023 | — | Guaíba a 3,46 m | Vale do Taquari, Serra e RMPA |
| Maio/2024 | 184 | 478 municípios, 2,4 mi afetados | Maior desastre da história do estado |
Dado relevante sobre alerta prévio (setembro/2023): o Cemaden identificou a situação de risco com cinco dias de antecedência; em 04/09, cerca de 48 horas antes do pico, foram emitidos 40 alertas — 22 de risco hidrológico e 18 geológico. O governo estadual afirma ter enviado 17 alertas preventivos por SMS. Ainda assim houve 54 mortes, e o coordenador do Cemaden atribui parte disso à rapidez da subida do Taquari e à ocorrência do pico durante a madrugada.
Uso sugerido: este é o dado que delimita o escopo do projeto. Alguém dirá que o problema se resolve com melhor previsão. A evidência de 2023 mostra que o alerta existiu, foi emitido com cinco dias de antecedência e mesmo assim não converteu em sobrevivência. Previsão e alerta já são funções bem providas por instituições com mandato e capacidade para isso — não é aí que está a lacuna, e não é aí que o projeto atua. O gargalo está na coordenação da resposta depois que o evento começa, que é exatamente a fase em que o meio de coordenação deixa de existir.
Vale registrar também o relato da prefeita de Estrela de que a experiência traumática de setembro de 2023 ajudou a população a reagir melhor em maio de 2024 — evidência de que memória comunitária funciona como camada de resiliência, o que reforça o componente social do conceito.
6. Fontes primárias para download de dados brutos
Section titled “6. Fontes primárias para download de dados brutos”Hidrológicos
Section titled “Hidrológicos”- HidroWeb / SNIRH (ANA) — https://www.snirh.gov.br/hidroweb — séries de níveis fluviais, vazões, chuva, climatologia e sedimentos da Rede Hidrometeorológica Nacional. É a fonte canônica para séries de cota.
- SGB/CPRM — SACE (Sistema de Alerta de Eventos Críticos) — https://www.sgb.gov.br/sace/ — sistema de mapeamento de manchas de inundação, incluindo trabalho específico para Lajeado na bacia Taquari-Antas, em parceria com o IPH/UFRGS.
- Cemaden — rede observacional com radar, estações pluviométricas e hidrológicas.
- INMET — dados das estações meteorológicas oficiais.
Topográficos / geoespaciais
Section titled “Topográficos / geoespaciais”- Dataset Possantti et al. (2024), Zenodo — https://zenodo.org/doi/10.5281/zenodo.11164049 — banco de dados das cheias na Região Hidrográfica do Lago Guaíba em maio de 2024. Contém mancha de inundação (água e lama) observada em 06/05/2024 por sensoriamento remoto e validada por inspeção visual, mapa de abrigos da RMPA, infraestrutura de saneamento e setores censitários do Censo IBGE 2022 com dados de pessoas e domicílios. Esforço voluntário de pesquisadores da UFRGS. Atenção: as versões v0.1 e v0.2 do geopackage estão corrompidas — usar versão mais recente. Citação exigida pelos autores.
- SGB — Cartografia de Suscetibilidade a Movimentos Gravitacionais de Massa e Inundações — https://www.sgb.gov.br/cartografia-de-suscetibilidade
- TOPODATA/INPE e SRTM — modelos digitais de elevação. Para trabalho em escala urbana, MDE de 30 m tende a ser insuficiente; considerar Copernicus DEM ou levantamento com dados geodésicos, conforme metodologia aplicada em estudo de caso em Itaqui/RS.
- IBGE — malha de setores censitários e dados do Censo 2022, essenciais para cruzar mancha de inundação com densidade populacional.
Institucionais
Section titled “Institucionais”- Portal SOS Rio Grande do Sul — https://sosenchentes.rs.gov.br — reúne resgates, óbitos, desaparecidos, feridos, abrigados, desalojados, níveis de rios (Guaíba, Lagoa dos Patos, Gravataí, Sinos, Caí, Taquari, Uruguai), abrigos e status de barragens.
- Defesa Civil RS — https://defesacivil.rs.gov.br — boletins diários arquivados de maio a julho de 2024, publicados às 9h, 12h e 18h. São a série temporal mais valiosa disponível: permitem reconstruir a curva diária de resgates, óbitos e desabrigados.
- Anatel — painel público de dados sobre status das telecomunicações durante a crise.
- S2iD — Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (Ministério da Integração) — registros formais de decretação de emergência e calamidade por município. Verificar disponibilidade e formato antes de citar.
7. Lacunas identificadas
Section titled “7. Lacunas identificadas”Pontos que o levantamento não conseguiu cobrir e que exigem trabalho adicional:
- Séries brutas não foram baixadas. Todo dado hidrológico aqui é secundário, citado por MetSul, SGB ou imprensa. Para o capítulo de metodologia será necessário baixar as séries do HidroWeb e replicar os números.
- Enchentes de 1959 — segundo maior desastre do estado em mortes, praticamente ausente das fontes digitais consultadas. Provável necessidade de arquivo (Arquivo Público do Estado do RS, que iniciou projeto de documentação de memórias das enchentes de 2024).
- Dados específicos de Santa Maria e região central não foram levantados. Se o projeto tem recorte regional, isso é prioritário.
- Não há métrica pública do tempo entre pedido de socorro e resgate efetivo. Este é o indicador que mediria diretamente o impacto da comunicação na sobrevivência, e sua ausência é, ela mesma, um achado a ser reportado. Possível caminho: dados da plataforma Salva RS, se os criadores autorizarem acesso.
- Nenhum estudo revisado por pares correlacionando falha de telecomunicação e mortalidade no RS foi localizado. A correlação, no texto, deve ser apresentada como argumento fundamentado, não como resultado empírico estabelecido.
8. Referências consultadas
Section titled “8. Referências consultadas”- Defesa Civil do Rio Grande do Sul. Balanços das enchentes no RS (boletins de maio/2024 a abril/2025). https://defesacivil.rs.gov.br
- Governo do Estado do Rio Grande do Sul. Portal SOS Rio Grande do Sul. https://sosenchentes.rs.gov.br
- MetSul Meteorologia. Análises sobre as cotas do Guaíba e a cheia de maio de 2024. https://metsul.com
- Ministério das Comunicações / Anatel. Boletins da força-tarefa de restabelecimento de telecomunicações no RS, maio/2024. https://www.gov.br/mcom
- Anatel. Rede de comunicação de emergência com radioamadores no RS, 2025. https://www.gov.br/anatel
- Possantti, I. et al. (2024). Banco de dados das cheias na Região Hidrográfica do Lago Guaíba em Maio de 2024. Zenodo. https://zenodo.org/doi/10.5281/zenodo.11164049
- Serviço Geológico do Brasil. Sistema de Alerta de Eventos Críticos e Cartografia de Suscetibilidade. https://www.sgb.gov.br
- Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Nota técnica sobre população atingida pelas enchentes de 2024.
- Confederação Nacional de Municípios (CNM). Estimativas de prejuízo, 2023 e 2024.
- Exame. Plataforma Salva RS, 14/05/2024.
- Agência Brasil, CNN Brasil, Correio Braziliense, Telesíntese, Brasil de Fato — cobertura jornalística citada ao longo do texto.