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Especificação de Requisitos — Sistema Rede de Resiliência

Versão: 0.1 (rascunho para revisão) Data: 20/08/2026 Escopo: rede de comunicação assíncrona tolerante a desconexão para operações de resgate em áreas atingidas por inundação, composta por nós terrestres, nós aéreos (drones) e nós gateway.

Fase de atuação: exclusivamente a fase de resposta. O sistema não prevê o evento, não emite alerta antecipado e não atua na mitigação. Seu marco temporal inicial é o instante em que a inundação já ocorreu e a infraestrutura de telecomunicações já está indisponível. Requisitos de previsão, alerta prévio ou monitoramento hidrológico estão fora de escopo e não devem ser incorporados sem revisão desta delimitação.


Termo Significado
DEVE Requisito obrigatório. A não conformidade invalida o sistema.
DEVERIA Requisito recomendado. Desvio exige justificativa registrada.
PODE Requisito opcional / desejável.
Código Método
I Inspeção (documental ou visual)
A Análise (cálculo, simulação, modelagem)
D Demonstração (execução observada)
T Teste (medição instrumentada com critério de aceitação)
  • RS-nn — Requisito de Sistema (nível 0)
  • RF-XX-nn — Requisito Funcional de subsistema
  • RNF-nn — Requisito Não Funcional transversal
  • RR-nn — Requisito Regulatório
  • Subsistemas: NU (nó de usuário), NR (nó repetidor fixo), ND (nó drone), NG (nó gateway), BK (backend), APP (aplicação)

Os números deste documento têm três origens distintas, sempre indicadas:

  • [D] Derivado — calculado ou inferido a partir dos dados do levantamento histórico ou de restrição física/regulatória. Defensável em banca.
  • [R] Referência de mercado — baseado no que equipamentos comerciais atuais entregam. Precisa ser confirmado contra o datasheet do hardware efetivamente escolhido.
  • [P] Provisório — arbitrado para permitir o projeto avançar. Precisa ser substituído por valor derivado antes da versão 1.0.

Não apresente um valor [P] como se fosse [D]. É o tipo de coisa que uma banca pergunta.


O sistema é especificado para operar sob as seguintes condições, todas documentadas no levantamento histórico:

Premissa Evidência
P1. Ausência total de telefonia móvel e internet na área de operação 12 municípios sem qualquer sinal em 03/05/2024; 239 com afetação parcial
P2. Ausência de energia elétrica comercial por período prolongado 440 mil unidades consumidoras sem energia; falta de combustível para geradores relatada pelas operadoras
P3. Acesso terrestre interrompido Estradas e pontes danificadas impediram acesso de veículos das próprias operadoras
P4. Duração da indisponibilidade da ordem de dias a semanas Municípios sem sinal de 02/05 a 13/05/2024 — 11 dias
P5. Espaço aéreo compartilhado com aeronaves tripuladas de resgate ~20 helicópteros particulares em operação de salvamento, além de aeronaves militares
P6. Operadores em campo são majoritariamente voluntários sem treinamento formal ~20 mil pessoas salvas na primeira semana por moradores com barcos e jet skis
P7. Condições meteorológicas adversas persistentes durante a operação Chuva contínua, vento forte, registro de dois tornados em 11/05/2024
P8. Circulação simultânea de desinformação Alegações falsas sobre bloqueio de ajuda e desvio de recursos durante a crise

Consequência de projeto: P2 + P4 significam que qualquer requisito de autonomia energética inferior a 72 h é insuficiente por construção. P3 é o que justifica o componente aéreo. P5 é a restrição de segurança dominante. P6 impõe que a interface seja utilizável sem treinamento.


Estes são os requisitos “totais” — o que o sistema faz, independentemente de como.

ID Requisito Verif.
RS-01 O sistema DEVE restabelecer a capacidade de troca de mensagens de texto georreferenciadas entre pontos de uma área afetada, e entre essa área e a rede pública de dados, sem depender de qualquer infraestrutura de telecomunicações preexistente na área. D
RS-02 O sistema DEVE operar sem qualquer fonte de energia elétrica da rede pública por, no mínimo, 72 h contínuas, e DEVERIA sustentar operação indefinida por captação solar. [D] T
RS-03 O sistema DEVE entregar mensagens de forma assíncrona, dispensando a existência de caminho fim-a-fim contínuo entre origem e destino no instante da emissão. T
RS-04 O sistema DEVE garantir que uma mensagem admitida na rede não seja descartada silenciosamente: todo descarte DEVE ocorrer por expiração explícita de TTL ou por confirmação de entrega, e DEVE ser registrado. T
RS-05 O sistema DEVE apresentar degradação graciosa: a perda de até 50% dos nós de uma célula não DEVE reduzir a taxa de entrega de mensagens de prioridade máxima abaixo de 70%. [P — arbitrado; substituir por valor derivado de simulação] A/T
RS-06 O sistema DEVE permitir implantação inicial em uma área isolada sem acesso terrestre, exclusivamente por meio aéreo ou fluvial. D
RS-07 O sistema DEVE entregar uma mensagem de pedido de socorro do nó de borda até o gateway com latência mediana ≤ 15 min e percentil 95 ≤ 2 h, sob a topologia nominal de projeto. [P] T
RS-08 O sistema DEVE priorizar mensagens por criticidade, de modo que uma mensagem de prioridade máxima emitida depois de uma de prioridade baixa seja entregue antes dela sob congestionamento. T
RS-09 O sistema DEVE deduplicar pedidos: múltiplas emissões referentes à mesma ocorrência DEVEM ser consolidadas em um único registro no destino, preservando o histórico de atualizações. T
RS-10 O sistema DEVE exportar o estado consolidado das ocorrências em formato aberto e legível por máquina, consumível pelos sistemas da Defesa Civil e por equipes de coordenação. I/D
RS-11 O sistema DEVE operar com interface utilizável por pessoa sem treinamento prévio, com emissão de pedido de socorro em no máximo 3 interações a partir da tela inicial. [D — decorre de P6] T
RS-12 O sistema NÃO DEVE, em nenhuma circunstância, comunicar ao usuário garantia ou promessa de resgate. Toda confirmação DEVE ser explicitamente de recebimento da mensagem, nunca de atendimento. I
RS-13 O sistema DEVE ser suplementar e não substitutivo aos canais oficiais de emergência, orientando o usuário a acioná-los sempre que disponíveis. I
RS-14 O sistema DEVE manter operação segura no espaço aéreo compartilhado com aeronaves tripuladas de resgate, com prioridade absoluta para estas. D/A
RS-15 O sistema DEVE tratar dados de localização e de condição de saúde de pessoas identificáveis como dados pessoais sensíveis, conforme LGPD (Lei 13.709/2018). I

Dispositivo de borda operado pela pessoa em situação de risco ou pelo voluntário em campo. Pode ser um dispositivo dedicado ou um smartphone acoplado a um módulo de rádio.

ID Requisito Verif.
RF-NU-01 O NU DEVE compor mensagem contendo, no mínimo: identificador único, coordenadas geográficas, carimbo temporal, número de pessoas, indicação de vulnerabilidade (criança, idoso, gestante, pessoa com deficiência, dependência de medicação contínua) e campo de texto livre. D
RF-NU-02 O NU DEVE armazenar a mensagem localmente e retransmiti-la periodicamente até obter confirmação de custódia, sem exigir ação adicional do usuário. T
RF-NU-03 O NU DEVE obter posição por GNSS com erro circular provável ≤ 10 m [R] e DEVE permitir entrada manual de posição ou ponto de referência textual quando não houver fixação de sinal. T
RF-NU-04 O NU DEVE atuar como repetidor para mensagens de terceiros, encaminhando-as segundo a política de roteamento da rede. T
RF-NU-05 O NU DEVE indicar ao usuário, de forma inequívoca, o estado da sua mensagem: pendente na fila local, custódia aceita pela rede, entregue ao gateway, expirada. D
RF-NU-06 O NU DEVE permitir atualização de estado de uma ocorrência já registrada (ex.: alteração do número de pessoas, agravamento clínico, resgate já efetuado), vinculada ao identificador original. T
RF-NU-07 O NU DEVE permitir o registro de resgate concluído, para remoção da ocorrência da fila ativa. Este requisito é o que evita deslocamento redundante de embarcações. D
RF-NU-08 O NU DEVERIA operar em modo somente-recepção de avisos (alertas de Defesa Civil, orientação de rota, informação de abrigo) mesmo sem capacidade de transmissão. T
ID Requisito Valor Origem Verif.
RF-NU-09 Autonomia em modo de operação nominal, sem recarga ≥ 72 h [D] — P2/P4 T
RF-NU-10 Autonomia em modo de baixo consumo (apenas escuta periódica) ≥ 7 dias [P] T
RF-NU-11 Recarga por painel solar integrado ou porta USB-C obrigatório [D] I
RF-NU-12 Grau de proteção contra água e poeira ≥ IP67 [D] — o dispositivo será usado dentro d’água, sob chuva T
RF-NU-13 Flutuabilidade DEVE flutuar [D] — ambiente de inundação T
RF-NU-14 Alcance de enlace direto, área urbana com obstrução ≥ 1,5 km [R] T
RF-NU-15 Alcance de enlace direto, linha de visada sobre água ≥ 8 km [R] T
RF-NU-16 Massa ≤ 300 g [P] I
RF-NU-17 Capacidade de armazenamento de mensagens de terceiros em custódia ≥ 2.000 mensagens [A] — ver §8.2 T
RF-NU-18 Custo unitário alvo de produção ≤ R$ 250 [P] A

Nota de projeto: RF-NU-13 (flutuabilidade) costuma ser esquecido em projetos de rede para enchente e é trivial de atender no design de invólucro. Vale destacar no texto — é o tipo de requisito que demonstra que o projeto partiu do cenário real e não de um template genérico de IoT.


Nó estacionário implantado em ponto alto (telhado, torre, poste, encosta) para estender a cobertura da célula.

ID Requisito Verif.
RF-NR-01 O NR DEVE operar de forma totalmente autônoma após a implantação, sem necessidade de intervenção humana local. D
RF-NR-02 O NR DEVE ser alimentado por painel solar com banco de baterias dimensionado para ≥ 5 dias de autonomia sem incidência solar útil. [D — inundações no RS ocorrem sob cobertura de nuvens persistente; dimensionar para irradiância de dia nublado, não para média anual] A/T
RF-NR-03 O NR DEVE suportar submersão temporária ou DEVE ser implantado acima da cota de inundação de projeto (TR 100 anos) do local. A/T
RF-NR-04 O NR DEVE resistir a vento sustentado de ≥ 25 m/s (90 km/h) sem perda de fixação ou de apontamento de antena. [D — decorre de P7] A/T
RF-NR-05 O NR DEVE manter em custódia mensagens não entregues por ≥ 7 dias ou até o TTL da mensagem, o que ocorrer primeiro. T
RF-NR-06 O NR DEVE ser implantável por uma única pessoa em ≤ 15 min, sem ferramenta especializada. D
RF-NR-07 O NR DEVERIA ser implantável por drone (deposição aérea), dispensando acesso ao ponto alto. D
RF-NR-08 O NR DEVE emitir baliza periódica de presença para permitir que os nós de usuário descubram a topologia disponível. T

O drone cumpre dois papéis funcionalmente distintos, e a especificação precisa separá-los porque os perfis de missão são incompatíveis entre si.

  • Papel A — Mula de dados (data mule): sobrevoa uma rota predefinida sobre a área isolada, coleta mensagens em custódia dos nós que encontra pelo caminho, retorna à base e as descarrega no gateway. Otimiza alcance.
  • Papel B — Relé aéreo: paira ou orbita sobre um ponto para servir de repetidor temporário durante uma janela de operação. Otimiza tempo em estação.
  • Papel C (opcional) — Implantação: transporta e deposita nós repetidores fixos.
ID Requisito Verif.
RF-ND-01 O ND DEVE transportar carga útil de comunicação capaz de operar como nó da rede em voo, aceitando custódia de mensagens. T
RF-ND-02 O ND DEVE executar rota programada de forma autônoma, com pontos de coleta definidos e tempo mínimo de permanência em cada ponto. D
RF-ND-03 No papel A, o ND DEVE permanecer sobre cada ponto de coleta por ≥ 90 s [A — ver cálculo em §8.3], tempo suficiente para drenar a fila de custódia dos nós ao alcance. T
RF-ND-04 O ND DEVE descarregar integralmente sua fila de custódia no gateway ao retornar à base, com confirmação transacional antes de liberar o espaço em buffer. T
RF-ND-05 O ND DEVE registrar, para cada mensagem coletada, a posição e o instante da coleta, permitindo reconstruir a trajetória de propagação para fins de auditoria e depuração. T
RF-ND-06 O ND DEVE executar retorno automático à base (RTH) por perda de enlace de comando, bateria baixa ou falha de subsistema. D
RF-ND-07 O ND DEVE dispor de meio de conscientização de tráfego aéreo tripulado (receptor ADS-B ou equivalente) e DEVE executar manobra de afastamento e/ou pouso imediato ao detectar aeronave tripulada em raio de ≤ 3 km ou em rota de conflito. [D — decorre de P5; ver §7.3] T
RF-ND-08 O ND NÃO DEVE sobrevoar aglomerações de pessoas nem pousar em área ocupada, e DEVE dispor de rota de contingência para pouso em área desocupada. A/D
RF-ND-09 O ND DEVERIA operar em enxame ou revezamento, de modo que a substituição de aeronave em recarga não interrompa a cobertura no papel B. D

Estes são os números que o seu colega pediu explicitamente. Todos precisam ser confrontados com o datasheet da plataforma escolhida antes da versão 1.0.

ID Parâmetro Valor mínimo Valor alvo Origem Verif.
RF-ND-10 Autonomia de voo útil com carga útil, excluída reserva ≥ 35 min ≥ 90 min [R] — multirrotor comercial atual entrega 40–55 min; VTOL asa fixa, 90–180 min T
RF-ND-11 Reserva de bateria obrigatória ao iniciar retorno ≥ 25% da capacidade 30% [D] — vento de retorno adverso e ausência de local alternativo de pouso em área alagada T
RF-ND-12 Raio operacional (ida e volta com reserva) ≥ 8 km ≥ 25 km [A] — derivado de RF-ND-10 e RF-ND-13 A/T
RF-ND-13 Velocidade de cruzeiro ≥ 12 m/s (43 km/h) ≥ 18 m/s [R] T
RF-ND-14 Vento sustentado máximo de operação ≥ 10 m/s (36 km/h) ≥ 15 m/s [D] — decorre de P7 T
RF-ND-15 Rajada máxima tolerada sem perda de controle ≥ 15 m/s ≥ 20 m/s [D] T
RF-ND-16 Operação sob precipitação DEVE operar sob chuva moderada; grau de proteção ≥ IP55 IP55 [D] — decorre de P7. Ver alerta em §5.3 T
RF-ND-17 Faixa de temperatura de operação −5 °C a +40 °C — [D] — inverno/outono gaúcho T
RF-ND-18 Capacidade de carga útil ≥ 500 g ≥ 2 kg (papel C) [P] T
RF-ND-19 Peso máximo de decolagem (PMD) ≤ 25 kg ≤ 2 kg [D] — limite da Categoria Aberta do RBAC 100; ver §7.2 I
RF-ND-20 Altura máxima de operação ≤ 120 m AGL — [D] — limite regulatório da Categoria Aberta T
RF-ND-21 Buffer de mensagens em custódia ≥ 50.000 mensagens ≥ 200.000 [A] — ver §8.2 T
RF-ND-22 Tempo de troca de bateria e retorno ao ar ≤ 5 min ≤ 3 min [P] T
RF-ND-23 Conjuntos de bateria por aeronave, para operação contínua ≥ 4 ≥ 6 [A] — derivado de RF-ND-10 e RF-ND-22 I
RF-ND-24 Meio de recarga em campo sem rede elétrica obrigatório (gerador, banco solar ou veículo) — [D] — decorre de P2 D
RF-ND-25 Precisão de navegação horizontal ≤ 5 m ≤ 1,5 m (RTK) [R] T
RF-ND-26 Ruído acústico a 50 m DEVERIA ≤ 65 dB(A) — [P] — relevante porque equipes de busca dependem de escuta de sinais de vida T

Este é o requisito mais frágil da especificação e precisa ser tratado com honestidade no texto.

A esmagadora maioria dos multirrotores comerciais acessíveis não possui grau de proteção declarado e não é homologada para voo sob chuva. Plataformas com IP55 existem, mas estão na faixa de dezenas de milhares de reais. Há, portanto, três caminhos, e o projeto precisa escolher explicitamente um:

  1. Aceitar a limitação: especificar o drone como recurso de janela de trégua — utilizável nos intervalos entre eventos de precipitação, não durante o pico. Isso é operacionalmente defensável, já que a fase de resgate se estende por dias, mas enfraquece a proposta de valor e precisa ser dito.
  2. Especificar plataforma com IP55 e absorver o custo, tratando o drone como ativo compartilhado entre municípios em vez de item distribuído.
  3. Prototipar invólucro estanque sobre plataforma comum, assumindo perda de garantia e de autonomia por peso adicional.

Recomendo o caminho 1 para o escopo acadêmico, com o 2 registrado como recomendação de implantação real. Um projeto que promete voo sob tempestade e não demonstra vai ser questionado exatamente nesse ponto.


Ponto de interface entre a rede assíncrona e a rede pública de dados. É o componente mais sutil da arquitetura, porque não faz apenas transporte: faz tradução entre dois modelos de comunicação semanticamente incompatíveis.

A rede interna opera em modelo store-carry-forward: sem sessão, sem caminho fim-a-fim, entrega best-effort com custódia, ordem de chegada arbitrária, latência de minutos a horas, relógios locais imprecisos. A internet opera em modelo requisição-resposta: sessão estabelecida, entrega assumida como imediata, ordem preservada, latência de milissegundos, relógio sincronizado.

Traduzir ingenuamente entre os dois produz quatro classes de erro, e cada uma gera um requisito:

  • Interpretar ACK de transporte como confirmação de entrega ao destinatário → RF-NG-03
  • Assumir que ordem de chegada equivale a ordem de emissão → RF-NG-05
  • Tratar reentrega como ocorrência nova → RF-NG-04
  • Descartar mensagem cujo enlace de saída está indisponível → RF-NG-06
ID Requisito Verif.
RF-NG-01 O NG DEVE traduzir mensagens do protocolo interno da rede para protocolo de aplicação da internet (HTTPS/MQTT ou equivalente) preservando integralmente identificador, carimbo de emissão, cadeia de custódia e prioridade. T
RF-NG-02 O NG DEVE traduzir no sentido inverso, injetando na rede assíncrona mensagens originadas na internet (alertas, confirmações de despacho, orientações), respeitando as restrições de banda e duty cycle do enlace interno. T
RF-NG-03 O NG NÃO DEVE emitir confirmação de entrega ao remetente com base em sucesso de transporte. Confirmação de entrega DEVE ser emitida apenas mediante confirmação da aplicação de destino, e propagada de volta à rede como mensagem distinta. T
RF-NG-04 O NG DEVE ser idempotente: o recebimento repetido de mensagem com mesmo identificador — situação esperada, dada a replicação inerente ao roteamento epidêmico — DEVE produzir exatamente um registro no destino. T
RF-NG-05 O NG NÃO DEVE ordenar eventos pelo relógio de parede do nó de origem. A ordenação DEVE usar número de sequência monotônico por nó, com o carimbo do gateway como referência secundária. [D — nós sem fixação GNSS têm relógio com deriva significativa] T
RF-NG-06 O NG DEVE bufferizar em armazenamento não volátil todas as mensagens pendentes quando o enlace de subida estiver indisponível, por ≥ 72 h ou ≥ 500.000 mensagens, o que for atingido primeiro, e DEVE drenar a fila automaticamente ao restabelecimento. [D/P] T
RF-NG-07 O NG DEVE suportar pelo menos dois meios de enlace de subida, sendo ao menos um não terrestre (satélite). DEVE selecionar automaticamente o enlace disponível e registrar a comutação. [D — decorre de P1 e da experiência dos terminais Telebras em 2024] T
RF-NG-08 O NG DEVE validar a autenticidade e a integridade de cada mensagem antes da injeção na rede pública, rejeitando e registrando mensagens não autenticadas. [D — decorre de P8] T
RF-NG-09 O NG DEVE manter registro auditável e imutável de toda mensagem processada, com instante de recepção, instante de encaminhamento e desfecho. T
RF-NG-10 O NG DEVE exportar o estado consolidado em GeoJSON e DEVERIA suportar CAP (Common Alerting Protocol, OASIS) para interoperabilidade com sistemas de alerta oficiais. I/D
RF-NG-11 O NG DEVE traduzir a política de prioridade da rede interna em ordenação equivalente na saída, de modo que a criticidade não se perca na travessia. T
RF-NG-12 O NG DEVE traduzir e propagar o TTL: mensagem expirada NÃO DEVE ser injetada como ocorrência ativa, mas DEVE ser registrada como expirada. T
RF-NG-13 O NG DEVE operar por ≥ 72 h sem energia da rede pública, com recarga solar. [D] T
RF-NG-14 O NG DEVE ser transportável e implantável por uma pessoa, incluindo antena e fonte, e DEVERIA ser transportável por embarcação pequena ou drone de carga. D
RF-NG-15 O NG DEVE degradar para modo somente-armazenamento — continuando a aceitar custódia da rede interna — quando não houver nenhum enlace de subida disponível, sem rejeitar mensagens. T
RF-NG-16 O NG DEVERIA expor interface local (Wi-Fi de curto alcance) permitindo que equipes no local consultem o estado consolidado mesmo sem enlace de subida. D

Nota: RF-NG-15 é o requisito que impede o modo de falha mais provável do sistema. Um gateway que rejeita mensagens quando perde o satélite transforma a rede inteira em rede síncrona, anulando toda a premissa do projeto. Vale um parágrafo dedicado no capítulo de arquitetura.


ID Requisito
RR-01 Os enlaces de rádio DEVEM operar em faixas de radiação restrita conforme Resolução Anatel nº 680/2017 e Ato nº 14.448/2017, dispensando licenciamento. Para LoRa no Brasil aplica-se o plano AU915, nas faixas 902–907,5 MHz e 915–928 MHz.
RR-02 Os equipamentos de rádio DEVEM ser homologados pela Anatel, ou empregar módulo OEM pré-homologado sem alteração de características de RF.
RR-03 A ocupação de canal DEVE respeitar os limites de potência e de tempo de ocupação aplicáveis à categoria.

⚠️ Verificar antes de fixar valores. Fontes secundárias divergem materialmente sobre o limite de potência aplicável nessas faixas: há referências a 1 W (30 dBm) de pico para sistemas com salto em frequência de no mínimo 35 canais e 0,25 W (24 dBm) para os demais, e há referências a 25 mW com duty cycle de 1%. Consulte o texto vigente do Ato nº 14.448/2017 diretamente, na seção aplicável, antes de dimensionar o enlace — o alcance do sistema depende inteiramente desse número, e errá-lo invalida os cálculos de cobertura.

7.2 Aeronáutica — atenção, houve mudança normativa recente

Section titled “7.2 Aeronáutica — atenção, houve mudança normativa recente”
ID Requisito
RR-04 A operação DEVE observar o RBAC 100 (Resolução ANAC nº 805), em vigor desde 16/06/2026, que substituiu o RBAC-E 94 e trocou a classificação por peso pelas categorias por risco: Aberta, Específica e Certificada.
RR-05 A aeronave DEVE ser cadastrada no SISANT (ANAC) e cada voo DEVE ter autorização de espaço aéreo via SARPAS NG (DECEA). Os dois cadastros são complementares e nenhum dispensa o outro.
RR-06 Operação na Categoria Aberta limita-se a VLOS (linha de visada), até 120 m de altura e afastamento de pessoas não envolvidas.
RR-07 Operação BVLOS enquadra-se na Categoria Específica e exige autorização da ANAC mediante análise de risco SORA aprovada.
RR-08 Operações não recreativas DEVEM contar com seguro de responsabilidade civil por danos a terceiros.
RR-09 Pilotos de aeronaves acima de 250 g DEVEM possuir aprovação em exame teórico da ANAC, com prazo de transição até o fim de 2026.

⚠️ Consequência de projeto de primeira ordem. O papel A (mula de dados sobrevoando área isolada) é, por definição, uma operação BVLOS sobre área potencialmente povoada — Categoria Específica, SORA aprovada, autorização prévia. Isso não se obtém no dia do desastre. O projeto precisa decidir agora entre:

  • (a) restringir a demonstração a VLOS, com raio efetivo de poucas centenas de metros, e tratar o BVLOS como trabalho futuro;
  • (b) desenvolver a análise SORA como parte da própria contribuição do trabalho — o que é academicamente valioso e diferencia o projeto, mas é um esforço considerável;
  • (c) modelar o sistema pressupondo articulação institucional prévia com Defesa Civil e DECEA, com autorização pré-aprovada acionável em emergência.

A opção (c) é a mais realista para operação real e a mais interessante para o texto, porque converte uma limitação técnica em um requisito de política pública — e conecta diretamente com o precedente da rede Anatel/LABRE/Defesa Civil documentado no levantamento.

7.3 Segurança de espaço aéreo compartilhado

Section titled “7.3 Segurança de espaço aéreo compartilhado”
ID Requisito
RR-10 A operação DEVE ser coordenada com o comando de operações aéreas de resgate da área, e DEVE ser suspensa imediatamente mediante solicitação deste.
RR-11 O sistema DEVE presumir presença de helicópteros de resgate operando em baixa altura e sem plano de voo publicado, e DEVE ceder espaço incondicionalmente.

Esta é a restrição de segurança dominante do projeto. Em 2024 havia cerca de vinte helicópteros particulares em operação de salvamento, além de aeronaves militares, frequentemente em baixa altitude e sem coordenação centralizada. Um drone autônomo nesse espaço aéreo é um risco à vida que o sistema se propõe a proteger. Trate isso como requisito de segurança crítica, não como nota de rodapé.

ID Requisito
RR-12 Dados de localização vinculados a pessoa identificável, e informação sobre condição de saúde, DEVEM ser tratados como dados pessoais sensíveis nos termos da LGPD.
RR-13 A base legal de tratamento DEVE ser explicitada — proteção da vida ou da incolumidade física do titular ou de terceiro é hipótese aplicável (art. 7º, VII e art. 11, II, “e”).
RR-14 O sistema DEVE definir política de retenção com prazo máximo e procedimento de anonimização ou eliminação após o encerramento da operação.
RR-15 O acesso ao estado consolidado DEVE ser controlado por perfil, e a exposição pública de dados individualizados de pessoas em situação de vulnerabilidade NÃO DEVE ocorrer.

Em 2024, municípios ficaram sem qualquer sinal de 02/05 a 13/05 — 11 dias. Um sistema com autonomia de 24 h teria falhado no dia 2 de 11. As 72 h são, portanto, o piso absoluto, não a meta: cobrem apenas a janela de maior densidade de resgates. A meta real é operação indefinida por captação solar, com o banco de baterias dimensionado para 5 dias de céu encoberto (RF-NR-02) — não para média anual de irradiância, porque inundação e céu limpo não coocorrem.

8.2 Dimensionamento de buffer (RF-NU-17, RF-ND-21, RF-NG-06)

Section titled “8.2 Dimensionamento de buffer (RF-NU-17, RF-ND-21, RF-NG-06)”

Mensagem estruturada típica: identificador (16 B) + coordenadas (8 B) + carimbo (8 B) + metadados de vulnerabilidade (4 B) + texto livre (≤ 160 B) + cabeçalho de custódia e assinatura (≈ 64 B) ≈ 260 B.

  • 50.000 mensagens ≈ 13 MB
  • 500.000 mensagens ≈ 130 MB

Ou seja: armazenamento não é restrição de projeto neste sistema. Um cartão microSD de 8 GB comporta ordens de magnitude mais do que qualquer cenário realista. O buffer deve ser dimensionado com folga generosa e a política de descarte deve ser regida por TTL e prioridade, jamais por escassez de memória. Vale afirmar isso explicitamente no texto — é um ponto onde a intuição engana.

Com LoRa em SF10/BW125, o airtime de um quadro de ~260 B fica na ordem de 0,5 a 1,2 s, a depender da configuração e do overhead.

Assumindo 0,8 s por mensagem, com aproveitamento de canal de 30% (colisões e contenção em acesso tipo ALOHA), a vazão útil é de aproximadamente 0,37 mensagens/s. Em 90 s de permanência: ≈ 33 mensagens drenadas por ponto de coleta.

Implicação a verificar: se um ponto de coleta agregar mais de ~30 mensagens pendentes, uma única passagem não drena a fila. Isso impõe ou permanência maior, ou múltiplas passagens, ou uso de múltiplos canais. Refazer este cálculo com os parâmetros de rádio efetivamente escolhidos — ele muda por ordem de magnitude conforme o spreading factor.

Com a mesma vazão útil de ~0,37 msg/s por canal, uma célula suporta ≈ 1.330 mensagens/hora. Com cada nó emitindo uma mensagem a cada 10 min, isso equivale a ≈ 220 nós ativos por canal. Para densidades maiores, é necessário segmentar em múltiplos canais ou reduzir a taxa de emissão sob congestionamento — o que reforça a necessidade de RS-08 (priorização).


9. Matriz de rastreabilidade — requisito ↔ evidência histórica

Section titled “9. Matriz de rastreabilidade — requisito ↔ evidência histórica”

Esta tabela é o que sustenta a defesa dos requisitos em banca. Todo requisito de sistema aponta para um fato documentado.

Requisito Evidência que o origina
RS-01, RR-01 12 municípios sem qualquer sinal; 239 com afetação parcial
RS-02, RF-NR-02, RF-NG-13 440 mil unidades sem energia; falta de combustível para geradores
RS-03, RS-04 Colapso simultâneo e regional das cinco bacias contribuintes
RS-06, RF-ND-01 Estradas e pontes danificadas impedindo acesso das próprias operadoras
RS-08, RS-09, RF-NU-07 Criação emergencial do Salva RS para centralizar pedidos dispersos e evitar dispersão de recursos
RS-11 ~20 mil resgates na 1ª semana executados por moradores sem treinamento
RS-14, RR-10, RR-11 ~20 helicópteros particulares em operação simultânea
RF-ND-14, RF-ND-16 Chuva persistente por 15 dias; dois tornados em 11/05/2024
RF-NG-08 Circulação documentada de desinformação durante a operação
RF-NG-07 Deslocamento de 53 antenas satelitais Telebras como única alternativa viável
RR-04 a RR-09 RBAC 100 / Resolução ANAC nº 805, vigente desde 16/06/2026
Todo o conjunto Rede redundante Anatel + LABRE-RS + Defesa Civil (2025), que reconhece oficialmente o problema como não resolvido

Precisam de decisão antes da versão 1.0:

  1. Escopo de voo — VLOS, SORA própria, ou articulação institucional prévia? (§7.2) Define o raio operacional e, portanto, metade dos números do §5.2.
  2. Limite de potência RF — resolver a divergência das fontes consultando o Ato 14.448/2017. (§7.1) Todos os cálculos de cobertura dependem disso.
  3. Estratégia de chuva — qual dos três caminhos do §5.3?
  4. Protocolo de roteamento — epidêmico, PRoPHET, MaxProp ou baseado em quadrantes? Define RS-05 e RS-07, hoje provisórios.
  5. Identidade e autenticação — como autenticar um nó de usuário sem infraestrutura de chaves acessível em campo, sem criar barreira de uso que viole RS-11?
  6. Escala do piloto — quantos nós, que área, qual município? Sem isso, RS-05 e §8.4 não têm como sair de [P].
  7. Métrica de sucesso — o levantamento registrou que não existe métrica pública do intervalo entre pedido de socorro e resgate efetivo. Se o projeto conseguir instrumentar essa métrica, ela é uma contribuição própria, independentemente do desempenho da rede.