Especificação de Requisitos — Sistema Rede de Resiliência
Versão: 0.1 (rascunho para revisão) Data: 20/08/2026 Escopo: rede de comunicação assíncrona tolerante a desconexão para operações de resgate em áreas atingidas por inundação, composta por nós terrestres, nós aéreos (drones) e nós gateway.
Fase de atuação: exclusivamente a fase de resposta. O sistema não prevê o evento, não emite alerta antecipado e não atua na mitigação. Seu marco temporal inicial é o instante em que a inundação já ocorreu e a infraestrutura de telecomunicações já está indisponível. Requisitos de previsão, alerta prévio ou monitoramento hidrológico estão fora de escopo e não devem ser incorporados sem revisão desta delimitação.
0. Como ler este documento
Section titled “0. Como ler este documento”0.1 Convenções normativas
Section titled “0.1 Convenções normativas”| Termo | Significado |
|---|---|
| DEVE | Requisito obrigatório. A não conformidade invalida o sistema. |
| DEVERIA | Requisito recomendado. Desvio exige justificativa registrada. |
| PODE | Requisito opcional / desejável. |
0.2 Método de verificação
Section titled “0.2 Método de verificação”| Código | Método |
|---|---|
| I | Inspeção (documental ou visual) |
| A | Análise (cálculo, simulação, modelagem) |
| D | Demonstração (execução observada) |
| T | Teste (medição instrumentada com critério de aceitação) |
0.3 Identificação
Section titled “0.3 Identificação”- RS-nn — Requisito de Sistema (nível 0)
- RF-XX-nn — Requisito Funcional de subsistema
- RNF-nn — Requisito Não Funcional transversal
- RR-nn — Requisito Regulatório
- Subsistemas: NU (nó de usuário), NR (nó repetidor fixo), ND (nó drone), NG (nó gateway), BK (backend), APP (aplicação)
0.4 Aviso sobre os valores numéricos
Section titled “0.4 Aviso sobre os valores numéricos”Os números deste documento têm três origens distintas, sempre indicadas:
- [D] Derivado — calculado ou inferido a partir dos dados do levantamento histórico ou de restrição física/regulatória. Defensável em banca.
- [R] Referência de mercado — baseado no que equipamentos comerciais atuais entregam. Precisa ser confirmado contra o datasheet do hardware efetivamente escolhido.
- [P] Provisório — arbitrado para permitir o projeto avançar. Precisa ser substituído por valor derivado antes da versão 1.0.
Não apresente um valor [P] como se fosse [D]. É o tipo de coisa que uma banca pergunta.
1. Premissas e contexto operacional
Section titled “1. Premissas e contexto operacional”O sistema é especificado para operar sob as seguintes condições, todas documentadas no levantamento histórico:
| Premissa | Evidência |
|---|---|
| P1. Ausência total de telefonia móvel e internet na área de operação | 12 municípios sem qualquer sinal em 03/05/2024; 239 com afetação parcial |
| P2. Ausência de energia elétrica comercial por período prolongado | 440 mil unidades consumidoras sem energia; falta de combustível para geradores relatada pelas operadoras |
| P3. Acesso terrestre interrompido | Estradas e pontes danificadas impediram acesso de veículos das próprias operadoras |
| P4. Duração da indisponibilidade da ordem de dias a semanas | Municípios sem sinal de 02/05 a 13/05/2024 — 11 dias |
| P5. Espaço aéreo compartilhado com aeronaves tripuladas de resgate | ~20 helicópteros particulares em operação de salvamento, além de aeronaves militares |
| P6. Operadores em campo são majoritariamente voluntários sem treinamento formal | ~20 mil pessoas salvas na primeira semana por moradores com barcos e jet skis |
| P7. Condições meteorológicas adversas persistentes durante a operação | Chuva contínua, vento forte, registro de dois tornados em 11/05/2024 |
| P8. Circulação simultânea de desinformação | Alegações falsas sobre bloqueio de ajuda e desvio de recursos durante a crise |
Consequência de projeto: P2 + P4 significam que qualquer requisito de autonomia energética inferior a 72 h é insuficiente por construção. P3 é o que justifica o componente aéreo. P5 é a restrição de segurança dominante. P6 impõe que a interface seja utilizável sem treinamento.
2. Requisitos de Sistema (nível 0)
Section titled “2. Requisitos de Sistema (nível 0)”Estes são os requisitos “totais” — o que o sistema faz, independentemente de como.
| ID | Requisito | Verif. |
|---|---|---|
| RS-01 | O sistema DEVE restabelecer a capacidade de troca de mensagens de texto georreferenciadas entre pontos de uma área afetada, e entre essa área e a rede pública de dados, sem depender de qualquer infraestrutura de telecomunicações preexistente na área. | D |
| RS-02 | O sistema DEVE operar sem qualquer fonte de energia elétrica da rede pública por, no mínimo, 72 h contínuas, e DEVERIA sustentar operação indefinida por captação solar. [D] | T |
| RS-03 | O sistema DEVE entregar mensagens de forma assíncrona, dispensando a existência de caminho fim-a-fim contínuo entre origem e destino no instante da emissão. | T |
| RS-04 | O sistema DEVE garantir que uma mensagem admitida na rede não seja descartada silenciosamente: todo descarte DEVE ocorrer por expiração explícita de TTL ou por confirmação de entrega, e DEVE ser registrado. | T |
| RS-05 | O sistema DEVE apresentar degradação graciosa: a perda de até 50% dos nós de uma célula não DEVE reduzir a taxa de entrega de mensagens de prioridade máxima abaixo de 70%. [P — arbitrado; substituir por valor derivado de simulação] | A/T |
| RS-06 | O sistema DEVE permitir implantação inicial em uma área isolada sem acesso terrestre, exclusivamente por meio aéreo ou fluvial. | D |
| RS-07 | O sistema DEVE entregar uma mensagem de pedido de socorro do nó de borda até o gateway com latência mediana ≤ 15 min e percentil 95 ≤ 2 h, sob a topologia nominal de projeto. [P] | T |
| RS-08 | O sistema DEVE priorizar mensagens por criticidade, de modo que uma mensagem de prioridade máxima emitida depois de uma de prioridade baixa seja entregue antes dela sob congestionamento. | T |
| RS-09 | O sistema DEVE deduplicar pedidos: múltiplas emissões referentes à mesma ocorrência DEVEM ser consolidadas em um único registro no destino, preservando o histórico de atualizações. | T |
| RS-10 | O sistema DEVE exportar o estado consolidado das ocorrências em formato aberto e legível por máquina, consumível pelos sistemas da Defesa Civil e por equipes de coordenação. | I/D |
| RS-11 | O sistema DEVE operar com interface utilizável por pessoa sem treinamento prévio, com emissão de pedido de socorro em no máximo 3 interações a partir da tela inicial. [D — decorre de P6] | T |
| RS-12 | O sistema NÃO DEVE, em nenhuma circunstância, comunicar ao usuário garantia ou promessa de resgate. Toda confirmação DEVE ser explicitamente de recebimento da mensagem, nunca de atendimento. | I |
| RS-13 | O sistema DEVE ser suplementar e não substitutivo aos canais oficiais de emergência, orientando o usuário a acioná-los sempre que disponíveis. | I |
| RS-14 | O sistema DEVE manter operação segura no espaço aéreo compartilhado com aeronaves tripuladas de resgate, com prioridade absoluta para estas. | D/A |
| RS-15 | O sistema DEVE tratar dados de localização e de condição de saúde de pessoas identificáveis como dados pessoais sensíveis, conforme LGPD (Lei 13.709/2018). | I |
3. Nó de Usuário (NU)
Section titled “3. Nó de Usuário (NU)”Dispositivo de borda operado pela pessoa em situação de risco ou pelo voluntário em campo. Pode ser um dispositivo dedicado ou um smartphone acoplado a um módulo de rádio.
3.1 Funcionais
Section titled “3.1 Funcionais”| ID | Requisito | Verif. |
|---|---|---|
| RF-NU-01 | O NU DEVE compor mensagem contendo, no mínimo: identificador único, coordenadas geográficas, carimbo temporal, número de pessoas, indicação de vulnerabilidade (criança, idoso, gestante, pessoa com deficiência, dependência de medicação contínua) e campo de texto livre. | D |
| RF-NU-02 | O NU DEVE armazenar a mensagem localmente e retransmiti-la periodicamente até obter confirmação de custódia, sem exigir ação adicional do usuário. | T |
| RF-NU-03 | O NU DEVE obter posição por GNSS com erro circular provável ≤ 10 m [R] e DEVE permitir entrada manual de posição ou ponto de referência textual quando não houver fixação de sinal. | T |
| RF-NU-04 | O NU DEVE atuar como repetidor para mensagens de terceiros, encaminhando-as segundo a política de roteamento da rede. | T |
| RF-NU-05 | O NU DEVE indicar ao usuário, de forma inequívoca, o estado da sua mensagem: pendente na fila local, custódia aceita pela rede, entregue ao gateway, expirada. | D |
| RF-NU-06 | O NU DEVE permitir atualização de estado de uma ocorrência já registrada (ex.: alteração do número de pessoas, agravamento clínico, resgate já efetuado), vinculada ao identificador original. | T |
| RF-NU-07 | O NU DEVE permitir o registro de resgate concluído, para remoção da ocorrência da fila ativa. Este requisito é o que evita deslocamento redundante de embarcações. | D |
| RF-NU-08 | O NU DEVERIA operar em modo somente-recepção de avisos (alertas de Defesa Civil, orientação de rota, informação de abrigo) mesmo sem capacidade de transmissão. | T |
3.2 Não funcionais e físicos
Section titled “3.2 Não funcionais e físicos”| ID | Requisito | Valor | Origem | Verif. |
|---|---|---|---|---|
| RF-NU-09 | Autonomia em modo de operação nominal, sem recarga | ≥ 72 h | [D] — P2/P4 | T |
| RF-NU-10 | Autonomia em modo de baixo consumo (apenas escuta periódica) | ≥ 7 dias | [P] | T |
| RF-NU-11 | Recarga por painel solar integrado ou porta USB-C | obrigatório | [D] | I |
| RF-NU-12 | Grau de proteção contra água e poeira | ≥ IP67 | [D] — o dispositivo será usado dentro d’água, sob chuva | T |
| RF-NU-13 | Flutuabilidade | DEVE flutuar | [D] — ambiente de inundação | T |
| RF-NU-14 | Alcance de enlace direto, área urbana com obstrução | ≥ 1,5 km | [R] | T |
| RF-NU-15 | Alcance de enlace direto, linha de visada sobre água | ≥ 8 km | [R] | T |
| RF-NU-16 | Massa | ≤ 300 g | [P] | I |
| RF-NU-17 | Capacidade de armazenamento de mensagens de terceiros em custódia | ≥ 2.000 mensagens | [A] — ver §8.2 | T |
| RF-NU-18 | Custo unitário alvo de produção | ≤ R$ 250 | [P] | A |
Nota de projeto: RF-NU-13 (flutuabilidade) costuma ser esquecido em projetos de rede para enchente e é trivial de atender no design de invólucro. Vale destacar no texto — é o tipo de requisito que demonstra que o projeto partiu do cenário real e não de um template genérico de IoT.
4. Nó Repetidor Fixo (NR)
Section titled “4. Nó Repetidor Fixo (NR)”Nó estacionário implantado em ponto alto (telhado, torre, poste, encosta) para estender a cobertura da célula.
| ID | Requisito | Verif. |
|---|---|---|
| RF-NR-01 | O NR DEVE operar de forma totalmente autônoma após a implantação, sem necessidade de intervenção humana local. | D |
| RF-NR-02 | O NR DEVE ser alimentado por painel solar com banco de baterias dimensionado para ≥ 5 dias de autonomia sem incidência solar útil. [D — inundações no RS ocorrem sob cobertura de nuvens persistente; dimensionar para irradiância de dia nublado, não para média anual] | A/T |
| RF-NR-03 | O NR DEVE suportar submersão temporária ou DEVE ser implantado acima da cota de inundação de projeto (TR 100 anos) do local. | A/T |
| RF-NR-04 | O NR DEVE resistir a vento sustentado de ≥ 25 m/s (90 km/h) sem perda de fixação ou de apontamento de antena. [D — decorre de P7] | A/T |
| RF-NR-05 | O NR DEVE manter em custódia mensagens não entregues por ≥ 7 dias ou até o TTL da mensagem, o que ocorrer primeiro. | T |
| RF-NR-06 | O NR DEVE ser implantável por uma única pessoa em ≤ 15 min, sem ferramenta especializada. | D |
| RF-NR-07 | O NR DEVERIA ser implantável por drone (deposição aérea), dispensando acesso ao ponto alto. | D |
| RF-NR-08 | O NR DEVE emitir baliza periódica de presença para permitir que os nós de usuário descubram a topologia disponível. | T |
5. Nó Drone (ND)
Section titled “5. Nó Drone (ND)”O drone cumpre dois papéis funcionalmente distintos, e a especificação precisa separá-los porque os perfis de missão são incompatíveis entre si.
- Papel A — Mula de dados (data mule): sobrevoa uma rota predefinida sobre a área isolada, coleta mensagens em custódia dos nós que encontra pelo caminho, retorna à base e as descarrega no gateway. Otimiza alcance.
- Papel B — Relé aéreo: paira ou orbita sobre um ponto para servir de repetidor temporário durante uma janela de operação. Otimiza tempo em estação.
- Papel C (opcional) — Implantação: transporta e deposita nós repetidores fixos.
5.1 Funcionais
Section titled “5.1 Funcionais”| ID | Requisito | Verif. |
|---|---|---|
| RF-ND-01 | O ND DEVE transportar carga útil de comunicação capaz de operar como nó da rede em voo, aceitando custódia de mensagens. | T |
| RF-ND-02 | O ND DEVE executar rota programada de forma autônoma, com pontos de coleta definidos e tempo mínimo de permanência em cada ponto. | D |
| RF-ND-03 | No papel A, o ND DEVE permanecer sobre cada ponto de coleta por ≥ 90 s [A — ver cálculo em §8.3], tempo suficiente para drenar a fila de custódia dos nós ao alcance. | T |
| RF-ND-04 | O ND DEVE descarregar integralmente sua fila de custódia no gateway ao retornar à base, com confirmação transacional antes de liberar o espaço em buffer. | T |
| RF-ND-05 | O ND DEVE registrar, para cada mensagem coletada, a posição e o instante da coleta, permitindo reconstruir a trajetória de propagação para fins de auditoria e depuração. | T |
| RF-ND-06 | O ND DEVE executar retorno automático à base (RTH) por perda de enlace de comando, bateria baixa ou falha de subsistema. | D |
| RF-ND-07 | O ND DEVE dispor de meio de conscientização de tráfego aéreo tripulado (receptor ADS-B ou equivalente) e DEVE executar manobra de afastamento e/ou pouso imediato ao detectar aeronave tripulada em raio de ≤ 3 km ou em rota de conflito. [D — decorre de P5; ver §7.3] | T |
| RF-ND-08 | O ND NÃO DEVE sobrevoar aglomerações de pessoas nem pousar em área ocupada, e DEVE dispor de rota de contingência para pouso em área desocupada. | A/D |
| RF-ND-09 | O ND DEVERIA operar em enxame ou revezamento, de modo que a substituição de aeronave em recarga não interrompa a cobertura no papel B. | D |
5.2 Desempenho — parâmetros numéricos
Section titled “5.2 Desempenho — parâmetros numéricos”Estes são os números que o seu colega pediu explicitamente. Todos precisam ser confrontados com o datasheet da plataforma escolhida antes da versão 1.0.
| ID | Parâmetro | Valor mínimo | Valor alvo | Origem | Verif. |
|---|---|---|---|---|---|
| RF-ND-10 | Autonomia de voo útil com carga útil, excluída reserva | ≥ 35 min | ≥ 90 min | [R] — multirrotor comercial atual entrega 40–55 min; VTOL asa fixa, 90–180 min | T |
| RF-ND-11 | Reserva de bateria obrigatória ao iniciar retorno | ≥ 25% da capacidade | 30% | [D] — vento de retorno adverso e ausência de local alternativo de pouso em área alagada | T |
| RF-ND-12 | Raio operacional (ida e volta com reserva) | ≥ 8 km | ≥ 25 km | [A] — derivado de RF-ND-10 e RF-ND-13 | A/T |
| RF-ND-13 | Velocidade de cruzeiro | ≥ 12 m/s (43 km/h) | ≥ 18 m/s | [R] | T |
| RF-ND-14 | Vento sustentado máximo de operação | ≥ 10 m/s (36 km/h) | ≥ 15 m/s | [D] — decorre de P7 | T |
| RF-ND-15 | Rajada máxima tolerada sem perda de controle | ≥ 15 m/s | ≥ 20 m/s | [D] | T |
| RF-ND-16 | Operação sob precipitação | DEVE operar sob chuva moderada; grau de proteção ≥ IP55 | IP55 | [D] — decorre de P7. Ver alerta em §5.3 | T |
| RF-ND-17 | Faixa de temperatura de operação | −5 °C a +40 °C | — | [D] — inverno/outono gaúcho | T |
| RF-ND-18 | Capacidade de carga útil | ≥ 500 g | ≥ 2 kg (papel C) | [P] | T |
| RF-ND-19 | Peso máximo de decolagem (PMD) | ≤ 25 kg | ≤ 2 kg | [D] — limite da Categoria Aberta do RBAC 100; ver §7.2 | I |
| RF-ND-20 | Altura máxima de operação | ≤ 120 m AGL | — | [D] — limite regulatório da Categoria Aberta | T |
| RF-ND-21 | Buffer de mensagens em custódia | ≥ 50.000 mensagens | ≥ 200.000 | [A] — ver §8.2 | T |
| RF-ND-22 | Tempo de troca de bateria e retorno ao ar | ≤ 5 min | ≤ 3 min | [P] | T |
| RF-ND-23 | Conjuntos de bateria por aeronave, para operação contínua | ≥ 4 | ≥ 6 | [A] — derivado de RF-ND-10 e RF-ND-22 | I |
| RF-ND-24 | Meio de recarga em campo sem rede elétrica | obrigatório (gerador, banco solar ou veículo) | — | [D] — decorre de P2 | D |
| RF-ND-25 | Precisão de navegação horizontal | ≤ 5 m | ≤ 1,5 m (RTK) | [R] | T |
| RF-ND-26 | Ruído acústico a 50 m | DEVERIA ≤ 65 dB(A) | — | [P] — relevante porque equipes de busca dependem de escuta de sinais de vida | T |
5.3 Alerta técnico sobre RF-ND-16
Section titled “5.3 Alerta técnico sobre RF-ND-16”Este é o requisito mais frágil da especificação e precisa ser tratado com honestidade no texto.
A esmagadora maioria dos multirrotores comerciais acessíveis não possui grau de proteção declarado e não é homologada para voo sob chuva. Plataformas com IP55 existem, mas estão na faixa de dezenas de milhares de reais. Há, portanto, três caminhos, e o projeto precisa escolher explicitamente um:
- Aceitar a limitação: especificar o drone como recurso de janela de trégua — utilizável nos intervalos entre eventos de precipitação, não durante o pico. Isso é operacionalmente defensável, já que a fase de resgate se estende por dias, mas enfraquece a proposta de valor e precisa ser dito.
- Especificar plataforma com IP55 e absorver o custo, tratando o drone como ativo compartilhado entre municípios em vez de item distribuído.
- Prototipar invólucro estanque sobre plataforma comum, assumindo perda de garantia e de autonomia por peso adicional.
Recomendo o caminho 1 para o escopo acadêmico, com o 2 registrado como recomendação de implantação real. Um projeto que promete voo sob tempestade e não demonstra vai ser questionado exatamente nesse ponto.
6. Nó Gateway (NG)
Section titled “6. Nó Gateway (NG)”Ponto de interface entre a rede assíncrona e a rede pública de dados. É o componente mais sutil da arquitetura, porque não faz apenas transporte: faz tradução entre dois modelos de comunicação semanticamente incompatíveis.
6.1 O problema que o gateway resolve
Section titled “6.1 O problema que o gateway resolve”A rede interna opera em modelo store-carry-forward: sem sessão, sem caminho fim-a-fim, entrega best-effort com custódia, ordem de chegada arbitrária, latência de minutos a horas, relógios locais imprecisos. A internet opera em modelo requisição-resposta: sessão estabelecida, entrega assumida como imediata, ordem preservada, latência de milissegundos, relógio sincronizado.
Traduzir ingenuamente entre os dois produz quatro classes de erro, e cada uma gera um requisito:
- Interpretar ACK de transporte como confirmação de entrega ao destinatário → RF-NG-03
- Assumir que ordem de chegada equivale a ordem de emissão → RF-NG-05
- Tratar reentrega como ocorrência nova → RF-NG-04
- Descartar mensagem cujo enlace de saída está indisponível → RF-NG-06
6.2 Requisitos
Section titled “6.2 Requisitos”| ID | Requisito | Verif. |
|---|---|---|
| RF-NG-01 | O NG DEVE traduzir mensagens do protocolo interno da rede para protocolo de aplicação da internet (HTTPS/MQTT ou equivalente) preservando integralmente identificador, carimbo de emissão, cadeia de custódia e prioridade. | T |
| RF-NG-02 | O NG DEVE traduzir no sentido inverso, injetando na rede assíncrona mensagens originadas na internet (alertas, confirmações de despacho, orientações), respeitando as restrições de banda e duty cycle do enlace interno. | T |
| RF-NG-03 | O NG NÃO DEVE emitir confirmação de entrega ao remetente com base em sucesso de transporte. Confirmação de entrega DEVE ser emitida apenas mediante confirmação da aplicação de destino, e propagada de volta à rede como mensagem distinta. | T |
| RF-NG-04 | O NG DEVE ser idempotente: o recebimento repetido de mensagem com mesmo identificador — situação esperada, dada a replicação inerente ao roteamento epidêmico — DEVE produzir exatamente um registro no destino. | T |
| RF-NG-05 | O NG NÃO DEVE ordenar eventos pelo relógio de parede do nó de origem. A ordenação DEVE usar número de sequência monotônico por nó, com o carimbo do gateway como referência secundária. [D — nós sem fixação GNSS têm relógio com deriva significativa] | T |
| RF-NG-06 | O NG DEVE bufferizar em armazenamento não volátil todas as mensagens pendentes quando o enlace de subida estiver indisponível, por ≥ 72 h ou ≥ 500.000 mensagens, o que for atingido primeiro, e DEVE drenar a fila automaticamente ao restabelecimento. [D/P] | T |
| RF-NG-07 | O NG DEVE suportar pelo menos dois meios de enlace de subida, sendo ao menos um não terrestre (satélite). DEVE selecionar automaticamente o enlace disponível e registrar a comutação. [D — decorre de P1 e da experiência dos terminais Telebras em 2024] | T |
| RF-NG-08 | O NG DEVE validar a autenticidade e a integridade de cada mensagem antes da injeção na rede pública, rejeitando e registrando mensagens não autenticadas. [D — decorre de P8] | T |
| RF-NG-09 | O NG DEVE manter registro auditável e imutável de toda mensagem processada, com instante de recepção, instante de encaminhamento e desfecho. | T |
| RF-NG-10 | O NG DEVE exportar o estado consolidado em GeoJSON e DEVERIA suportar CAP (Common Alerting Protocol, OASIS) para interoperabilidade com sistemas de alerta oficiais. | I/D |
| RF-NG-11 | O NG DEVE traduzir a política de prioridade da rede interna em ordenação equivalente na saída, de modo que a criticidade não se perca na travessia. | T |
| RF-NG-12 | O NG DEVE traduzir e propagar o TTL: mensagem expirada NÃO DEVE ser injetada como ocorrência ativa, mas DEVE ser registrada como expirada. | T |
| RF-NG-13 | O NG DEVE operar por ≥ 72 h sem energia da rede pública, com recarga solar. [D] | T |
| RF-NG-14 | O NG DEVE ser transportável e implantável por uma pessoa, incluindo antena e fonte, e DEVERIA ser transportável por embarcação pequena ou drone de carga. | D |
| RF-NG-15 | O NG DEVE degradar para modo somente-armazenamento — continuando a aceitar custódia da rede interna — quando não houver nenhum enlace de subida disponível, sem rejeitar mensagens. | T |
| RF-NG-16 | O NG DEVERIA expor interface local (Wi-Fi de curto alcance) permitindo que equipes no local consultem o estado consolidado mesmo sem enlace de subida. | D |
Nota: RF-NG-15 é o requisito que impede o modo de falha mais provável do sistema. Um gateway que rejeita mensagens quando perde o satélite transforma a rede inteira em rede síncrona, anulando toda a premissa do projeto. Vale um parágrafo dedicado no capítulo de arquitetura.
7. Requisitos Regulatórios
Section titled “7. Requisitos Regulatórios”7.1 Radiofrequência
Section titled “7.1 Radiofrequência”| ID | Requisito |
|---|---|
| RR-01 | Os enlaces de rádio DEVEM operar em faixas de radiação restrita conforme Resolução Anatel nº 680/2017 e Ato nº 14.448/2017, dispensando licenciamento. Para LoRa no Brasil aplica-se o plano AU915, nas faixas 902–907,5 MHz e 915–928 MHz. |
| RR-02 | Os equipamentos de rádio DEVEM ser homologados pela Anatel, ou empregar módulo OEM pré-homologado sem alteração de características de RF. |
| RR-03 | A ocupação de canal DEVE respeitar os limites de potência e de tempo de ocupação aplicáveis à categoria. |
⚠️ Verificar antes de fixar valores. Fontes secundárias divergem materialmente sobre o limite de potência aplicável nessas faixas: há referências a 1 W (30 dBm) de pico para sistemas com salto em frequência de no mínimo 35 canais e 0,25 W (24 dBm) para os demais, e há referências a 25 mW com duty cycle de 1%. Consulte o texto vigente do Ato nº 14.448/2017 diretamente, na seção aplicável, antes de dimensionar o enlace — o alcance do sistema depende inteiramente desse número, e errá-lo invalida os cálculos de cobertura.
7.2 Aeronáutica — atenção, houve mudança normativa recente
Section titled “7.2 Aeronáutica — atenção, houve mudança normativa recente”| ID | Requisito |
|---|---|
| RR-04 | A operação DEVE observar o RBAC 100 (Resolução ANAC nº 805), em vigor desde 16/06/2026, que substituiu o RBAC-E 94 e trocou a classificação por peso pelas categorias por risco: Aberta, Específica e Certificada. |
| RR-05 | A aeronave DEVE ser cadastrada no SISANT (ANAC) e cada voo DEVE ter autorização de espaço aéreo via SARPAS NG (DECEA). Os dois cadastros são complementares e nenhum dispensa o outro. |
| RR-06 | Operação na Categoria Aberta limita-se a VLOS (linha de visada), até 120 m de altura e afastamento de pessoas não envolvidas. |
| RR-07 | Operação BVLOS enquadra-se na Categoria Específica e exige autorização da ANAC mediante análise de risco SORA aprovada. |
| RR-08 | Operações não recreativas DEVEM contar com seguro de responsabilidade civil por danos a terceiros. |
| RR-09 | Pilotos de aeronaves acima de 250 g DEVEM possuir aprovação em exame teórico da ANAC, com prazo de transição até o fim de 2026. |
⚠️ Consequência de projeto de primeira ordem. O papel A (mula de dados sobrevoando área isolada) é, por definição, uma operação BVLOS sobre área potencialmente povoada — Categoria Específica, SORA aprovada, autorização prévia. Isso não se obtém no dia do desastre. O projeto precisa decidir agora entre:
- (a) restringir a demonstração a VLOS, com raio efetivo de poucas centenas de metros, e tratar o BVLOS como trabalho futuro;
- (b) desenvolver a análise SORA como parte da própria contribuição do trabalho — o que é academicamente valioso e diferencia o projeto, mas é um esforço considerável;
- (c) modelar o sistema pressupondo articulação institucional prévia com Defesa Civil e DECEA, com autorização pré-aprovada acionável em emergência.
A opção (c) é a mais realista para operação real e a mais interessante para o texto, porque converte uma limitação técnica em um requisito de política pública — e conecta diretamente com o precedente da rede Anatel/LABRE/Defesa Civil documentado no levantamento.
7.3 Segurança de espaço aéreo compartilhado
Section titled “7.3 Segurança de espaço aéreo compartilhado”| ID | Requisito |
|---|---|
| RR-10 | A operação DEVE ser coordenada com o comando de operações aéreas de resgate da área, e DEVE ser suspensa imediatamente mediante solicitação deste. |
| RR-11 | O sistema DEVE presumir presença de helicópteros de resgate operando em baixa altura e sem plano de voo publicado, e DEVE ceder espaço incondicionalmente. |
Esta é a restrição de segurança dominante do projeto. Em 2024 havia cerca de vinte helicópteros particulares em operação de salvamento, além de aeronaves militares, frequentemente em baixa altitude e sem coordenação centralizada. Um drone autônomo nesse espaço aéreo é um risco à vida que o sistema se propõe a proteger. Trate isso como requisito de segurança crítica, não como nota de rodapé.
7.4 Proteção de dados
Section titled “7.4 Proteção de dados”| ID | Requisito |
|---|---|
| RR-12 | Dados de localização vinculados a pessoa identificável, e informação sobre condição de saúde, DEVEM ser tratados como dados pessoais sensíveis nos termos da LGPD. |
| RR-13 | A base legal de tratamento DEVE ser explicitada — proteção da vida ou da incolumidade física do titular ou de terceiro é hipótese aplicável (art. 7º, VII e art. 11, II, “e”). |
| RR-14 | O sistema DEVE definir política de retenção com prazo máximo e procedimento de anonimização ou eliminação após o encerramento da operação. |
| RR-15 | O acesso ao estado consolidado DEVE ser controlado por perfil, e a exposição pública de dados individualizados de pessoas em situação de vulnerabilidade NÃO DEVE ocorrer. |
8. Memórias de cálculo
Section titled “8. Memórias de cálculo”8.1 Autonomia de 72 h (RS-02)
Section titled “8.1 Autonomia de 72 h (RS-02)”Em 2024, municípios ficaram sem qualquer sinal de 02/05 a 13/05 — 11 dias. Um sistema com autonomia de 24 h teria falhado no dia 2 de 11. As 72 h são, portanto, o piso absoluto, não a meta: cobrem apenas a janela de maior densidade de resgates. A meta real é operação indefinida por captação solar, com o banco de baterias dimensionado para 5 dias de céu encoberto (RF-NR-02) — não para média anual de irradiância, porque inundação e céu limpo não coocorrem.
8.2 Dimensionamento de buffer (RF-NU-17, RF-ND-21, RF-NG-06)
Section titled “8.2 Dimensionamento de buffer (RF-NU-17, RF-ND-21, RF-NG-06)”Mensagem estruturada típica: identificador (16 B) + coordenadas (8 B) + carimbo (8 B) + metadados de vulnerabilidade (4 B) + texto livre (≤ 160 B) + cabeçalho de custódia e assinatura (≈ 64 B) ≈ 260 B.
- 50.000 mensagens ≈ 13 MB
- 500.000 mensagens ≈ 130 MB
Ou seja: armazenamento não é restrição de projeto neste sistema. Um cartão microSD de 8 GB comporta ordens de magnitude mais do que qualquer cenário realista. O buffer deve ser dimensionado com folga generosa e a política de descarte deve ser regida por TTL e prioridade, jamais por escassez de memória. Vale afirmar isso explicitamente no texto — é um ponto onde a intuição engana.
8.3 Janela de contato do drone (RF-ND-03)
Section titled “8.3 Janela de contato do drone (RF-ND-03)”Com LoRa em SF10/BW125, o airtime de um quadro de ~260 B fica na ordem de 0,5 a 1,2 s, a depender da configuração e do overhead.
Assumindo 0,8 s por mensagem, com aproveitamento de canal de 30% (colisões e contenção em acesso tipo ALOHA), a vazão útil é de aproximadamente 0,37 mensagens/s. Em 90 s de permanência: ≈ 33 mensagens drenadas por ponto de coleta.
Implicação a verificar: se um ponto de coleta agregar mais de ~30 mensagens pendentes, uma única passagem não drena a fila. Isso impõe ou permanência maior, ou múltiplas passagens, ou uso de múltiplos canais. Refazer este cálculo com os parâmetros de rádio efetivamente escolhidos — ele muda por ordem de magnitude conforme o spreading factor.
8.4 Capacidade de célula (RS-07)
Section titled “8.4 Capacidade de célula (RS-07)”Com a mesma vazão útil de ~0,37 msg/s por canal, uma célula suporta ≈ 1.330 mensagens/hora. Com cada nó emitindo uma mensagem a cada 10 min, isso equivale a ≈ 220 nós ativos por canal. Para densidades maiores, é necessário segmentar em múltiplos canais ou reduzir a taxa de emissão sob congestionamento — o que reforça a necessidade de RS-08 (priorização).
9. Matriz de rastreabilidade — requisito ↔ evidência histórica
Section titled “9. Matriz de rastreabilidade — requisito ↔ evidência histórica”Esta tabela é o que sustenta a defesa dos requisitos em banca. Todo requisito de sistema aponta para um fato documentado.
| Requisito | Evidência que o origina |
|---|---|
| RS-01, RR-01 | 12 municípios sem qualquer sinal; 239 com afetação parcial |
| RS-02, RF-NR-02, RF-NG-13 | 440 mil unidades sem energia; falta de combustível para geradores |
| RS-03, RS-04 | Colapso simultâneo e regional das cinco bacias contribuintes |
| RS-06, RF-ND-01 | Estradas e pontes danificadas impedindo acesso das próprias operadoras |
| RS-08, RS-09, RF-NU-07 | Criação emergencial do Salva RS para centralizar pedidos dispersos e evitar dispersão de recursos |
| RS-11 | ~20 mil resgates na 1ª semana executados por moradores sem treinamento |
| RS-14, RR-10, RR-11 | ~20 helicópteros particulares em operação simultânea |
| RF-ND-14, RF-ND-16 | Chuva persistente por 15 dias; dois tornados em 11/05/2024 |
| RF-NG-08 | Circulação documentada de desinformação durante a operação |
| RF-NG-07 | Deslocamento de 53 antenas satelitais Telebras como única alternativa viável |
| RR-04 a RR-09 | RBAC 100 / Resolução ANAC nº 805, vigente desde 16/06/2026 |
| Todo o conjunto | Rede redundante Anatel + LABRE-RS + Defesa Civil (2025), que reconhece oficialmente o problema como não resolvido |
10. Questões em aberto
Section titled “10. Questões em aberto”Precisam de decisão antes da versão 1.0:
- Escopo de voo — VLOS, SORA própria, ou articulação institucional prévia? (§7.2) Define o raio operacional e, portanto, metade dos números do §5.2.
- Limite de potência RF — resolver a divergência das fontes consultando o Ato 14.448/2017. (§7.1) Todos os cálculos de cobertura dependem disso.
- Estratégia de chuva — qual dos três caminhos do §5.3?
- Protocolo de roteamento — epidêmico, PRoPHET, MaxProp ou baseado em quadrantes? Define RS-05 e RS-07, hoje provisórios.
- Identidade e autenticação — como autenticar um nó de usuário sem infraestrutura de chaves acessível em campo, sem criar barreira de uso que viole RS-11?
- Escala do piloto — quantos nós, que área, qual município? Sem isso, RS-05 e §8.4 não têm como sair de [P].
- Métrica de sucesso — o levantamento registrou que não existe métrica pública do intervalo entre pedido de socorro e resgate efetivo. Se o projeto conseguir instrumentar essa métrica, ela é uma contribuição própria, independentemente do desempenho da rede.